Arquivo de medicos

Flashs do dia… quando dar significa dar a quem mais precisa…

Posted in Flashs do Dia... with tags , , , on Outubro 4, 2008 by soniapessoa

Quando a motivação de um grupo de médicos são as pessoas, acima de tudo pessoas esquecidas pela distância geográfica dos grandes centros, quando o resultado é o abaixo descrito, podemos dizer que este é um bom exemplo que deve ser seguido pela classe médica de norte a sul do país. Algumas pessoas deste país deixam-me orgulhosa…

 “Médicos do Grande Porto deslocaram-se de forma voluntária e gratuita, aos concelhos de Mogadouro e Freixo de Espada à Cinta para fazer rastreios, diagnósticos e pequenas cirurgias. O rastreio médico efectuado centrou-se na população sénior e jovem. Os clínicos analisaram centenas de casos nas áreas da dermatologia, ortopedia, cirurgia vascular, urologia e ginecologia.

As acções decorreram no Centro de Saúde e Lar da Terceira Idade de Mogadouro com o apoio do município local. Após o trabalho ali desenvolvido aqueles profissionais de saúde rumaram a Freixo de Espada à Cinta para verificar os resultados dos casos mais graves detectados numa acção semelhante que ali decorreu o ano passado.”

Há coisas que me incomodam

Posted in Uncategorized with tags , , , on Junho 26, 2008 by soniapessoa

Há poucas coisas que me incomodam. Ou melhor, há poucas coisas que me incomodam tanto como ver o sofrimento de uma criança. Eu moro num rés-do-chão, por isso, e porque ontem estava um calor infernal, permito ao meu mais novo brincar na rua com os amiguinhos, sob a minha atenta vigilância. Vou lá espreitar frequentemente, ou estou sempre de ouvido alerta, controlando cada movimento que possa ser excessivo levado pela excitação da brincadeira.

Ontem à noite, já tinha dado ordem de que estava na hora de regressar às bases, uma das meninas, numa varanda de rés-do-cão, fez uma cambalhota, e não sei bem como, trilhou a garganta no ferro. Os amigos chamaram e fui logo a correr ver o que se passava. Encontrei-a cheia de dores, os olhos rasos de lágrimas, sem conseguir falar e alguma dificuldade em respirar. Levei-a logo à mãe que, sem carro, me pediu se a acompanhava ao hospital. Lá fomos.

O hospital de Braga (e tenho quase a certeza de que em muitos outros) é um daqueles sítios onde sei que me vou irritar facilmente, muito mais do que o aumento da gasolina me irrita… por isso, depois de tirarmos a ficha, à entrada, fiz logo questão de bater à porta da triagem, e, depois de me certificar de que as duas enfermeiras que lá estavam conversavam animadamente, encarreguei-me de explicar que estava ali uma criança aflita. Claro que uma delas foi logo dizendo que tinha que esperar que chamassem. Sou sincera, nestas coisas eu já não dou o benefício da dúvida, apressei-me a sublinhar que era uma criança, estava com dificuldades em respirar e as senhoras não estavam a atender ninguém… A segunda enfermeira mandou-nos entrar com um ar mais simpático que a outra. claro que a primeira, empenhada em manter a minha má impressão sobre o pessoal hospitalar, foi logo dizendo para eu sair, pois estava ali a mãe da menina, ao que eu respondi que só ía dizer o que tinha acontecido, já que não tenho particular interesse em frequentar locais como aquele (o cheiro do éter incomoda-me veementemente!), ao que a delicada senhora disse, sempre sem olhar para mim; “a mãe da menina não sabe falar?”. Respondi: “a mãe da menina não estava presente, mas posso ir-me embora, que tenho filhos em casa á minha espera…” Mais uma vez a segunda enfermeira, a mais agradável, insistiu em que eu ficasse e descrevesse o que tinha acontecido. Descrevi e saí.

Esperei, esperei. Resolvi pedir ao segurança que me deixasse avisar a mãe da menina de que me iria embora, pois, certamente, ela iria demorar e eu não estava ali a fazer nada. Quando entro na urgência, ao fundo do corredor, lá estavam elas sentadas à espera… e a menina continuava sem falar e aflita… Na sala onde iria ser atendida estava um médico, sentado ao computador, com um papel na mão. Chamei pelo Sr. Dr. e disse que estava ali uma menina aflita, ao que me respondeu: “Minha Senhora, só tenho uma mão”… eu insisti e ouvi, por mais duas vezes, “eu só tenho uma mão”, ao que respondi e sublinhei novamente que era uma criança e ele não estava ocupado a ver ninguém…

Foi ali que me apeteceu explicar-lhe que ele não tinha apenas uma mão, mas duas, que a sala estava vazia e a menina era mais importante que qualquer acto burocrático a ser efectuado num computador, que o computador podia certamente esperar pois a menina tinha dores e ele (o computador) não, que se pousasse o papel ficaria com a mão liberta para cumprir o seu dever como médico e cidadão, que é dar assistência a quem precisa, que não ouvi o juramento que fez, quando um dia se formou, mas tenho a certeza que todas as palavras que há-de ter proferido contrariavam aquele comportamento descomprometido, despreocupado e pouco profissional, que se fosse a minha filha que estivesse ali ele a veria no momento, independentemente de ter a mão ocupada ou não e foi quando me apeteceu dar-lhe dois pares de estalos pela sua atitude e a de todos os colegas de profissão que se lhe assemelham… respirei fundo, contei até dez, disse à mãe da menina que protestasse se fosse preciso e me telefonasse caso fosse necessário ir buscá-la.

Ainda agora estou arrependida de não lhe ter dado os dois pares de estalos…

Voltei para casa, irritada, discuti com o meu marido sem ele ter culpa nenhuma, e vociferei durante algum tempo contra este tipo de postura… que numa linha de produção, facilitemos, nos desleixemos e o copo de vidro caia ao chão e se parta, é uma coisa… num hospital não há lugar á rotina, ao desleixo e ao deixa andar… era uma criança, um ser humano que estava aflito!