Não há rapazes maus

Esta é uma frase que sempre me intrigou… “Não há rapazes maus”, do Padre Américo, sempre foi uma daquelas frases que me soam a meias verdades, ou meias mentiras. Hoje pude comprovar que pelo menos três quartos desta afirmação é verdade…

Tenho andado há espera de um momento certo para escrever sobre “os meus meninos… sim, já lhes chamo assim. Ao fim de um mês a trabalhar, diariamente, com cerca de 200 crianças, uma das conclusões a que cheguei é que os miúdos hoje em dia não sabem brincar. A violência toma conta das brincadeiras, que acabam sempre com lágrimas e Betadine à mistura.

Não sei se já tinha feito referência, mas, entre as quase 200 crianças da escola, cerca de 25 são de etnia cigana. Confesso que para mim foi um desafio conhecê-los, pois nunca tinha lidado com crianças ciganas tão de perto. A conclusão a que cheguei, ao fim destes trinta dias, é que são crianças que tanto são muito violentas, como muito meigas. São de extremos. Nas brincadeiras são quase sempre muito violentas, e quando se confrontam com os colegas não controlam as (más) reacções. Se repreendidas, a maioria aceita a repreensão, se bem que ao fim de 10 minutos já estão a fazer o mesmo.

Hoje, depois do almoço, todas as salas, desde o 1º ao 4º ano, foram reunidas no polivalente para assistirem a um vídeo de sensibilização sobre os mais recentes acontecimentos no Haiti, ao mesmo tempo que foi lançada uma campanha de ajuda aos haitianos- Um euro por uma vida. O filme, com música de fundo, fez passar algumas imagens do Haiti, ainda antes da tragédia, e as imagens a que temos assistido na televisão já  depois do sismo. Quando dei por mim tinha os olhos rasos de lágrimas… não pelo que passava na tela, pois o meu olhar não estava aí concentrado, mas sim pelas reacções a que assitia na plateia. A consternação era geral, tirando um ou outro que acusa a indiferença de quem está habituado a ver aquilo à mesa de jantar e não presta grande atenção. Ao mesmo tempo que acho que estas crianças devem saber o que se passa no mundo, que há outras crianças que sofrem e não têm a sua sorte, questionei-me se não seria muito violento confrontá-los assim desta forma… conclui que afinal “não há rapazes maus”… aqueles meninos(as) que em todas as brincadeiras são tão violentos, que batem em quem lhes desagrada, e pontapeiam quem se lhes atravessa no caminho, tinham os olhos rasos de lágrimas… aquela menina a quem ralho todos os dias, levou as mãos à cabeça e chorou convulsivamente… aquele menino cigano que repreendo a cada minuto, tinha um olhar chocado e tapou os olhos recusando uma realidade que não conhecia… fixei o olhar naquela plateia e percebi que, pelo menos durante aqueles 30 minutos, a frase do Padre Américo fez sentido… afinal, “não há rapazes maus”. E foi nesse momento que os meus olhos se encheram de lágrimas… e de esperança.

Anúncios

7 Respostas to “Não há rapazes maus”

  1. Eu lido com os petizes e não tão petizes todos os dias e acerca do problema do mau comportamento, ou dos tais rapazes maus, tenho para mim até ao momento que as crianças de hoje não sabem, principalmente, estar. É algo que lhes passa ao lado, o saber estar. Daí advém a falta de respeito, as brincadeiras violentas, etc. E ficam genuinamente surpreendidas, por vezes consternadas, por estarem a ser repreendidas por algo que consideravam normal. As causas poderão ser muitas. Pessoalmente creio ser a causa maior, o declínio dos valores da família, antes o centro da educação da criança, hoje uma instituição quase esquecida.

    Acerca das crianças ciganas, os valores culturais são muito fortes nessa etnia, e não me sinto preparado para comentar acerca desse assunto. Tive alguns alunos ciganos, mas muito diluídos numa turma maioritariamente de crianças não ciganas.

  2. soniapessoa Says:

    Concordo consigo Pedro, há de facto valores importantíssimos que se perderam. E, de facto, constato diariamente que eles acham normalíssimo brincar com violência, também fruto daquilo a que assistem nos desenhos animados e filmes que passam nas televisão, e nos jogos das Play Stations, e demais maquinetas, que graças a Deus (que cá em casa sou eu!!) tenho conseguido resistir e ensinado os meus filhos de que são coisas supérfulas que não lhes ensinam nada, nem estimulam a imaginação. Abraço

  3. Cara Sónia,

    Gostei do post e do seu conteúdo.
    Permito-me, no entanto, dizer que o comportamento actual das crianças é todo ele motivado pela ausência de educação por parte dos Pais. Dado que cada um se empenha fortemente em seguir as suas carreiras, chegam a casa com um sentimento de culpa que os leva a uma certa permissividade com os filhos autorizando-os a tudo fazer com a justificação de que assim compensarão as suas longas ausências. Pobres filhos que nem sequer aprendem a confrontar-se com um “Não” altamento pedagógico que as prepare para o futuro que não se compadecerá com a educação que levaram.
    Estes Pais, já por si anti-pedagógicos, atrevem-se igualmente a dizer cobras e lagartos dos Professores dos filhos quando os mesmos se queixam dos Professores. Não estou sempre de acordo com certos comportamentos dos Professores mas nunca diria isso à frente de filhos ou netos para não desautorizar quem deve manter a autoridade na ausência dos Encarregados de Educação.
    Este comportamento é que vai reflectir-se nos jovens do futuro.
    Na sua violência sempre que são confrontados com um Não.
    Na sua rebeldia sempre que não os deixam fazer o que lhes apetece em vez daquilo que assumem nos locais de trabalho.
    Depois… bem, depois nem para balconistas são aceites, infelizmente!

    Foi a 1ª vez que aqui passei e peço desculpa por me ter alongado. Espero que a ideia tivesse passado correctamente já que este assunto me apaixona de tal maneira que por vezes atrapalho-me. LOL

    • soniapessoa Says:

      Natércia, concordo com o que diz, em prol de uma carreira brilhante comprometemos um futuro que será tudo menos brilhante. Obrigada pela visita e volte sempre.

  4. também concordo que não há rapazes maus, Sónia, são as circunsTãncias da vida

  5. Continuo, porque a caixa pirou-se sem pedir autorização
    São as circunstâncias da vida, dizia, que muitas vezes os levam a ter comportamentos desajustados.
    Em minha OPINIÃO, O AMBIENTE FAMILIAR MUITAS VEZES TAMBÉM NÃO AJUDA, como parece ser o caso que relatei hoje no CR e já comentáste.
    Enchemos a boca com os Direitos das Crianças, mas muitos pais parecem esquecer que a cada direito corresponde um dever. Há dias esteve cá uma psicóloga espanhola que disse, desassombradamente, que
    a maioria dos pais não sabe exercer o seu papel , não sabe dizer NÃO e com isso, prejudica as crianças. Não e nada de novo, mas não pude deixar de concordar.
    PS: Quanto ao convite que fizeste, agradeço desde já. Vou todos os meses ao Norte, mas fico pelo Porto, porque a minha mãe vive lá. Tem 95 anos e já não é fácil levá-la para mais longe do que a Foz ou Espinho.
    Por vezes vou em trabalho e pode ser que surja a oportunidade.
    Obrigado pela tua eterna simpatia. Bom fds

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s

%d bloggers like this: