Há coisas que me incomodam

Há poucas coisas que me incomodam. Ou melhor, há poucas coisas que me incomodam tanto como ver o sofrimento de uma criança. Eu moro num rés-do-chão, por isso, e porque ontem estava um calor infernal, permito ao meu mais novo brincar na rua com os amiguinhos, sob a minha atenta vigilância. Vou lá espreitar frequentemente, ou estou sempre de ouvido alerta, controlando cada movimento que possa ser excessivo levado pela excitação da brincadeira.

Ontem à noite, já tinha dado ordem de que estava na hora de regressar às bases, uma das meninas, numa varanda de rés-do-cão, fez uma cambalhota, e não sei bem como, trilhou a garganta no ferro. Os amigos chamaram e fui logo a correr ver o que se passava. Encontrei-a cheia de dores, os olhos rasos de lágrimas, sem conseguir falar e alguma dificuldade em respirar. Levei-a logo à mãe que, sem carro, me pediu se a acompanhava ao hospital. Lá fomos.

O hospital de Braga (e tenho quase a certeza de que em muitos outros) é um daqueles sítios onde sei que me vou irritar facilmente, muito mais do que o aumento da gasolina me irrita… por isso, depois de tirarmos a ficha, à entrada, fiz logo questão de bater à porta da triagem, e, depois de me certificar de que as duas enfermeiras que lá estavam conversavam animadamente, encarreguei-me de explicar que estava ali uma criança aflita. Claro que uma delas foi logo dizendo que tinha que esperar que chamassem. Sou sincera, nestas coisas eu já não dou o benefício da dúvida, apressei-me a sublinhar que era uma criança, estava com dificuldades em respirar e as senhoras não estavam a atender ninguém… A segunda enfermeira mandou-nos entrar com um ar mais simpático que a outra. claro que a primeira, empenhada em manter a minha má impressão sobre o pessoal hospitalar, foi logo dizendo para eu sair, pois estava ali a mãe da menina, ao que eu respondi que só ía dizer o que tinha acontecido, já que não tenho particular interesse em frequentar locais como aquele (o cheiro do éter incomoda-me veementemente!), ao que a delicada senhora disse, sempre sem olhar para mim; “a mãe da menina não sabe falar?”. Respondi: “a mãe da menina não estava presente, mas posso ir-me embora, que tenho filhos em casa á minha espera…” Mais uma vez a segunda enfermeira, a mais agradável, insistiu em que eu ficasse e descrevesse o que tinha acontecido. Descrevi e saí.

Esperei, esperei. Resolvi pedir ao segurança que me deixasse avisar a mãe da menina de que me iria embora, pois, certamente, ela iria demorar e eu não estava ali a fazer nada. Quando entro na urgência, ao fundo do corredor, lá estavam elas sentadas à espera… e a menina continuava sem falar e aflita… Na sala onde iria ser atendida estava um médico, sentado ao computador, com um papel na mão. Chamei pelo Sr. Dr. e disse que estava ali uma menina aflita, ao que me respondeu: “Minha Senhora, só tenho uma mão”… eu insisti e ouvi, por mais duas vezes, “eu só tenho uma mão”, ao que respondi e sublinhei novamente que era uma criança e ele não estava ocupado a ver ninguém…

Foi ali que me apeteceu explicar-lhe que ele não tinha apenas uma mão, mas duas, que a sala estava vazia e a menina era mais importante que qualquer acto burocrático a ser efectuado num computador, que o computador podia certamente esperar pois a menina tinha dores e ele (o computador) não, que se pousasse o papel ficaria com a mão liberta para cumprir o seu dever como médico e cidadão, que é dar assistência a quem precisa, que não ouvi o juramento que fez, quando um dia se formou, mas tenho a certeza que todas as palavras que há-de ter proferido contrariavam aquele comportamento descomprometido, despreocupado e pouco profissional, que se fosse a minha filha que estivesse ali ele a veria no momento, independentemente de ter a mão ocupada ou não e foi quando me apeteceu dar-lhe dois pares de estalos pela sua atitude e a de todos os colegas de profissão que se lhe assemelham… respirei fundo, contei até dez, disse à mãe da menina que protestasse se fosse preciso e me telefonasse caso fosse necessário ir buscá-la.

Ainda agora estou arrependida de não lhe ter dado os dois pares de estalos…

Voltei para casa, irritada, discuti com o meu marido sem ele ter culpa nenhuma, e vociferei durante algum tempo contra este tipo de postura… que numa linha de produção, facilitemos, nos desleixemos e o copo de vidro caia ao chão e se parta, é uma coisa… num hospital não há lugar á rotina, ao desleixo e ao deixa andar… era uma criança, um ser humano que estava aflito!

8 Respostas to “Há coisas que me incomodam”

  1. Há alguns anos, numa situação parecida com essa, um pai deu 2 murros num médico.Foi a tribunal e foi condenado a pagar 100 contos(foi há anos), 50 por cada murro. No final da audiência, esse Pai disse o seguinte:Sr. Dr. juiz, foram os 100 contos mais bem empregues até hoje…

  2. soniapessoa Says:

    eu sei que não é solução, mas que às fezes um bom par de murros lhes fazia bem, isso fazia… e sempre alivia a alma de quem os dá!

  3. vou linkar este texto!
    beijinhos.

  4. Ai quem me dera ser assim…

  5. soniapessoa Says:

    Avó, as crianças movem-me até ao infinito, imagine agora até onde vou quando as vejo sofrer…

  6. Dizem que o nosso sistema de saúde está em quinto lugar entre todos os sistemas de saúde gratuitos.
    Muitos dos profissionais de saúde queixam-se com falta de condições e se tivessem mais recursos poderiam melhorar.
    No entanto quando precisamos de recorrer a ele (SNS) somos confrontados com a dura realidade do que é ser utente. Utente! Só o facto de sermos tratados deste forma, utente! coloca os profissionais de saúde uns patamares acima da nossa ignóbil existência. Quem recorre ao SNS deveria ser tratado como cliente, o que faria uma grande diferença. O cliente tem direitos e dessa forma mostrar-se-ia que todo o sistema foi imaginado para o servir. Enquanto o utente, utente!…, tem de se contentar em ser apenas mais um asteróide que órbita em torno de um sol abrasador chamado Sistema Nacional de Saúde.
    Apesar disso e dentro do SNS existem algumas ilhas de excelência, que deixam boquiaberto quem por elas elas passa. Pena que sejam poucas. Ao dizer isto lembro-me de uma experiência que tive no Hospital Pulido Valente, onde cada doente é tratado como o cliente mais importante do hospital. Também os IPO’s são frequentemente apontados como ilhas onde a cultura da relação profissionais de saúde/doente são extraordinárias.
    E de facto a diferença entre todos os locais onde funciona SNS resume-se à cultura da organização. Quando alguém entra de novo no quadro de um hospital ou centro de saúde, assim como em qualquer empresa, está com o ‘balão cheio’ e é levado a receber os valores dos colegas como seus. Em alguns locais a cultura é exigente e noutros é negligente. Quem chega é levado a seguir a regras tácitas de funcionamento. É difícil inverter um ciclo negligente de funcionalismo público que se preocupa essencialmente em defender-se do sistema, onde, como relata a Sónia, é frequente encontrar quem estaje mais preocupado em preencher o formulário ou os campos vazios da aplicação informática, que em acudir a alguém a dificuldades. Os livros de reclamações são uma solução/ilusão agradável, que no primeiro momento incomóda o prevaricador mas que sabemos não o prejudicar de facto. As avaliações dos funcionários públicos, por mais negativas que sejam nunca podem levar ao seu despedimento. Viva a Constituição da República Portuguesa.

  7. soniapessoa Says:

    Obrigada Paulo, pela visita e comentário. Não me ocorreu o livro de reclamações, só mesmo os dois pares de estalos… fica para a próxima! Ela vai existir (infelizmente) de certeza absoluta…
    beijinho e vai aparecendo.
    Sónia

  8. Bom por incrível que pareça já me aconteceu uma situação parecida (e eu sou enfermeira), o que denota qua a postura ddos profissionais, às vezes (não deveria ser assim…) tem a ver com a cultura da organização e eu acho que também tem a ver com a educação. Enfim, compreendo-te são situações muito iriritantes e aborrecidas!
    Um grande beijinho da RS.

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